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SUICÍDIO
O tema de nosso estudo nesta publicação nos fará
percorrer as noções básicas de um fenômeno
humano intrigante, de muita importância para todos nós
e que solicita dos estudiosos das ciências da Saúde
Mental posicionamentos e orientações urgentes. Em
todo o mundo é muito grande o número de pessoas que
morrem por suicídio e nos EUA, por exemplo, as estatísticas
revelam 30.000 mortes por ano.
Muitos psiquiatras e psicoterapeutas desenvolveram a noção
de que ´´meu paciente está em sofrimento mental
mas pelo menos isto não é uma doença fatal``.
As estatísticas estão mostrando que isto é
um equívoco uma vez que a taxa de suicídio como porcentagem
de todas as causas de morte em pacientes psiquiátricos atinge
aproximadamente 20% nos pacientes com transtorno bipolar, 15% nos
alcoolistas, 15% nos pacientes com transtorno depressivo e 10 e
13% nos esquizofrênicos.
Podemos ver que não há razão para muita tranquilidade
e os riscos de suicídio requerem atenção dos
que cuidam da saúde física e mental, permitindo ações
coordenadas de prevenção e tratamento.
Como podemos definir o suicídio?
O suicídio é definido como uma morte auto-infligida,
intencional. Deve ser diferenciado da tentativa de suicídio
que é um ato não letal que tem a morte como sua meta,
aparentando a vontade de morrer.
O número de tentativas de suicídio é muito
maior do que os suicídios realizados?
Sim. Para cada suicídio há um grande número
de tentativas de suicídio e gestos suicidas que são
indicadores de intenção com um conteúdo manipulativo
do ambiente e das pessoas à volta.
Os homens cometem o suicídio 3 vezes mais que as mulheres
e as mulheres tentam 4 vezes mais que os homens.
Mesmo quando as tentativas de suicídio parecem manipulativas
e leves elas devem ser encaradas com seriedade pois indicam uma
pessoa em sofrimento e com poucos recursos mentais para fazer face
às circunstâncias da vida.
Quais as características das pessoas que realizam com
mais frequência o ato suicida?
As pessoas que estão em maior risco são as portadoras
de transtornos mentais e de doenças físicas mutilantes
ou que produzem dor, com idade mais avançada, isoladas socialmente,
com pouco suporte familiar, com pouca flexibilidade mental frente
às mudanças sociais e econômicas e que estão
passando por situações estressantes ou humilhantes
ou de perdas materiais ou afetivas.
Existe suicídio de crianças?
É extremamente raro a ocorrência de suicídio
até os 12 anos. Tipicamente o suicídio é uma
ocorrência das faixas etárias mais altas mas ultimamente
tem sido observado um grande aumento do número de suicídio
nos que estão entre 20-40 anos, constituindo uma importante
causa de morte nesta faixa etária.
As pessoas que pensam muito em suicídio tem um risco maior?
Sim. A chamada ideação suicida que é constituida
pelos pensamentos recorrentes de procurar a própria morte
é um ingrediente do risco suicida embora muitas pessoas que
a manifestam não chegam a fazer nenhuma tentativa.
Quais são os métodos mais habituais de cometer
um suicídio?
Os homens tendem a usar métodos mais violentos como saltar
de lugares elevados e o uso de armas de fogo.
As mulheres tendem a usar medicamentos ( principalmente psicotrópicos),
venenos e ferimentos ( cortar os pulsos).
Qual é a motivação das pessoas que tentam
e que realizam o suicídio?
O motivo mais determinante das tentativas e dos suicídios
realizados é escapar de um sofrimento mental considerado
insuportável e a pessoa não consegue ver outra forma
senão esta. Os suicidas têm um estreitamento na maneira
de ver o mundo e a sua vida que é denominado ´´visão
em túnel``. Não conseguem ver alternativas que estão
disponíveis e se sentem sem saída.
Outros aspectos motivacionais incluem o vingar-se com a própria
morte de pessoas que a tenham ofendido, desprezado ou humilhado.
Quais são as fantasias mais frequentes nos suicidas?
São as fantasias de reunião com pessoas queridas
que já morreram, de adquirir poder e contrôle sobre
as pessoas, de renascimento (voltar para uma vida melhor, com menos
sofrimento e melhores condições).
Há casos em que as fantasias evoluem para um delírio
e a pessoa comete suicídio na crença de modificar
o mundo com seu gesto, de redimir a humanidade pecadora.
São comuns as fantasias autopunitivas.
Há uma herança genética da tendência
suicida?
A observação clínica, os estudos das famílias
de suicidas, os estudos de gêmeos e filhos adotados revelam
a existência de fatores genéticos na propensão
e risco de suicídio.
Como os fatores genéticos determinam uma probabilidade
maior de que a pessoa cometa suicídio?
Os estudos do líquido cefalorraquidiano de pessoas que cometeram
suicídio levam à hipótese de uma falta de um
neurotransmissor ( substância química que participa
da transmissão de mensagens entre as células do sistema
nervoso) a serotonina.
Esta substância está implicada na ocorrência
de depressão que, como já vimos traz um risco elevado
de suicídio. O fator genético levaria a uma baixa
produção de serotonina.
A ocorrência de um suicídio pode influenciar outras
pessoas a fazer o mesmo?
Sim. É bastante conhecido o fenômeno de contaminação
suicida. Se um suicídio é muito divulgado ele vai
desencadear uma série de outros de pessoas que, obviamente
já eram suicidas em potencial.
Este fenômeno ocorre, às vêzes, entre adolescentes
que tentam ou cometem suicídio da mesma maneira que um jovem
o fez.
É verdade que falar com um amigo ou familiar sobre um
comportamento considerado suicida ou preocupante pode desencadear
o suicídio?
Não. Este é um dos mitos em relação
ao suicídio. Não é falando e discutindo francamente
com uma pessoa acerca de suas idéias e tendências suicidas
que ela entrará em risco. É justamente o contrário;
quando uma pessoa pode falar e encontra compreensão do seu
sofrimento é que o risco diminui.
Quais são as razões que levam uma pessoa que apresenta
os fatores de risco a não cometer o suicídio?
As mais comuns são:
- responsabilidade com a família e principalmente com filhos.
´´ Não posso deixar meus filhos para outros cuidarem,
minha família depende de mim``
- medo do suicídio. ´´ Não tenho coragem
suficiente para fazer isto, tenho medo de falhar na tentativa``
- medo da desaprovação social. Temor do que as pessoas
venham a pensar de seu ato.
- Objeções religiosas. ´´ A minha religião
proíbe. Será um pecado muito grande. Tenho medo de
ir para o inferno``
- Idéias de enfrentamento e sobrevivência ´´
Tenho que enfrentar este momento difícil que irá passar.
Ainda tenho muito para fazer na vida``
Podemos então concluir que o ato suicida é multifatorial?
A ocorrência do suicídio é determinada por
vários fatores que se somam. Ao sentimento de desesperança
e intensa dor psíquica somam-se outros fatores, como isolamento
social, estresses da vida profissional, mudanças bruscas
na situação social e financeira, envelhecimento e
diminuição de possibilidades, alterações
de saúde, transtornos mentais e outros fatores.
É conhecido o fato de que muito suicidas estiveram em
consulta médica no período recente que antecedeu o
suicídio. Por que não é detectado o risco?
Muitas pessoas que já têm uma decisão de cometer
o suicídio não discutem as suas idéias com
ninguém, nem mesmo com o médico e isto dificulta a
detecção da intenção suicida.
Muitas vezes o médico não está suficientemente
atento aos fatores de risco para provocar o assunto na consulta
médica.
É possível a prevenção do suicídio?
Sendo um acontecimento multifatorial a prevenção
é difícil. Em alguns dos fatores do suicídio
pode haver a intervenção de ações de
saúde mental. Em outros fatores que têm determinantes
sociais e econômicas isto não é possível.
Quais são os sinais, sintomas e dados de história
de vida que alertam para um risco suicida e podem possibilitar uma
ação preventiva?
Podemos citar:
1- Tentativa prévia ou fantasia de suicídio
2- Ansiedade, depressão e esgotamento
3- Disponibilidade de meios de suicídio
4- Preocupação com as consequências do suicídio
em membros da família
5- Ideação suicida verbalizada
6- Preparação de testamento e estado de resignação
após uma depressão agitada
7- Proximidade de crise vital como luto ou cirurgia a ser feita
8- História familiar de suicídio.
É importante ressaltar que os estudiosos deste assunto ainda
não produziram nenhum instrumento de detecção
de risco de suicídio que seja de utilidade na prática
clínica. O que conta mais nas ações de prevenção
e detecção do risco é a experiência clínica
do médico ou terapeuta que atende o paciente.
Como podemos ajudar a salvar vidas e proteger pessoas dos riscos
que elas representam para si mesmas?
Divulgando idéias científicas a respeito deste tema,
procurando conhecê-lo mais profundamente, ajudando a eliminar
os preconceitos que envolvem os suicídios e os mitos que
dificultam a abordagem. Devemos estar atentos às pessoas
que apresentam os fatores de risco que estudamos e encaminhá-los,
sempre que possível, a profissionais de saúde mental
com experiência para avaliar a extensão dos riscos.
Podemos falar de tratamento do suicídio?
As pessoas que conseguiram realizar o intento suicida já
não podem ser objeto de nenhuma ajuda mas os seus familiares
e principalmente os filhos podem ser ajudados na minimização
dos danos provocados pelo suicídio, o que será preventivo
da ocorrência de outros.
Os que escaparem do suicídio devem ser objeto de cuidados
especiais.
Alguns devem ser hospitalizados para maior segurança mas
a grande maioria pode ser tratada ambulatorialmente.
É necessário que a família exerça uma
vigilância intensa ( após uma tentativa outra é
mais provável principalmente nos 3 primeiros meses ), elimine
os meios disponíveis para suicídio.
É necessário o tratamento de transtornos mentais que
possam estar presentes, bem como de doenças físicas
que produzem dor, preocupação com sobrevivência
e desesperança.
É necessário oferecer suporte social e familiar às
pessoas mais isoladas.
O médico clínico poderá indicar à família
onde procurar ajuda para enfrentar o problema.
Existe um questionamento de que o suicídio pode representar
um ato positivo, racional, em alguns casos?
Citaremos o exemplo de uma história clínica para
que cada um avalie se existe esta forma de suicídio.
A paciente Da. Clara, de 75 anos, teve recentemente um infarto do
miocárdio extenso e sério, já que apresentava
um grande entupimento das artérias do coração.
O seu cardiologista indicou uma cirurgia de revascularização
de alto custo e risco ( o plano de saúde de Da. Clara ficou
perdido após o pagamento de muitos anos porque a empresa
faliu). Os filhos se dispuseram a pagar o tratamento.
Da. Clara recusou o tratamento e começou a sofrer de dores
intensas, que comprometeram a sua qualidade de vida. Uma semana
após o infarto ingeriu uma mistura de vários medicamentos
e amanheceu morta. Deixou uma carta explicando as suas razões
e manifestando agradecimento a seus familiares. Alegou não
querer gastar recursos financeiros em ´´ uma causa perdida
``. Disse ter vivido uma bela vida e não viu sentido em continuar
vivendo uma vida sem dignidade e cheia de sofrimento.
São Paulo, 17 de março de 2003.
Osvaldo Lopes do Amaral
Diretor Clínico do INEF |