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TRANSTORNO
BORDERLINE DE PERSONALIDADE
O estudo, a pesquisa e tratamento das pessoas
diagnosticadas como portadoras do transtorno borderline de personalidade
( TBP ) é um dos maiores desafios para os estudiosos de
saúde mental. Os progressos foram muito grandes nos últimos
20 anos mas falta muito para atingirmos um conhecimento que torne
possível melhores tratamentos para diminuir o sofrimento
das pessoas acometidas, de seus familiares e da comunidade.
É muito importante o esforço de pesquisa nesta área
e é com satisfação que observamos o aumento
de trabalhos publicados sobre este tema.
O conceito de personalidade borderline é o resultado inevitável
do esforço para definir um limite entre o funcionamento
mental neurótico e psicótico.
O uso consagrou a denominação com a grafia e pronúncia
da lingua inglesa ( pronunciamos borderlaine ) na comunidade científica
mundial.
Nesta publicação vamos estudar o transtorno Borderline
de Personalidade que pertence ao grupo amplo de Transtornos de
Personalidade, que será objeto de outra publicação.
O que é um Transtorno de Personalidade?
A personalidade é a síntese
de nossos comportamentos, cognições e emoções
que faz de cada um de nós uma pessoa única. Estes
atributos tendem a ser estáveis e permanentes, permitindo
que nossos familiares, amigos e conhecidos possam prever como
nós reagiremos a uma dada situação e permite
a eles nos descrever para outras pessoas.
Embora nossa personalidade tenha esta característica de
estabilidade e permanência, a ponto de nossa reação
a determinadas situações possa ser previsível,
a pessoa com uma personalidade saudável demonstra uma grande
variedade de respostas às situações de vida
e principalmente às situações estressantes.
Um transtorno de personalidade ocorre quando
uma pessoa não pode mostrar tal flexibilidade e adaptabilidade.
A falta de adaptabilidade e o limitado repertório de respostas
frente às situações comuns de vida, e principalmente
daquelas mais estressantes, torna-se uma importante fonte de sofrimento
para o indivíduo e para os que estão à sua
volta.
Os transtornos de personalidade tornam-se reconhecíveis
na adolescência ou, às vezes antes, e permanecem
pela maior parte da vida adulta. São padrões desadaptados,
inflexíveis, muito enraizados e de severidade suficiente
para atrapalhar o funcionamento da pessoa e trazem muito sofrimento.
Por que é importante reconhecer um
paciente com transtorno de personalidade?
O diagnóstico de transtorno de personalidade
pode indicar que o paciente tem um elevado risco de suicídio,
afeta o curso e prognóstico de doenças co-existentes,
destaca importantes fatores etiológicos, informa ao clínico
acerca da evolução e prognóstico do paciente,
indica áreas de importante disfunção nos
papéis sociais, familiares e ocupacionais e ajuda o clínico
na administração global do tratamento.
Como são os critérios atuais
que os médicos usam para diagnosticar um transtorno borderline
da personalidade?
O instrumento diagnóstico mais usado
atualmente pelos médicos é DSM-IV ( Manual Estatístico
e Diagnóstico editado pela Associação Psiquiátrica
Norte -Americana ), que estabelece os seguintes critérios:
um padrão difuso de instabilidade das relações
interpessoais, auto-imagem e afetos, com acentuada impulsividade
começando no início da vida adulta, e presente numa
variedade de contextos, como indicado por cinco ( ou mais ) dos
seguintes:
1 - esforços desesperados
para evitar abandonos reais ou imaginários.
2 - um padrão
de relações interpessoais instáveis e intensas
caracterizadas pela alternância de extremos de idealização
e desvalorização.
3 - perturbações
de identidade:
auto-imagem e sentido de self ( sentido de ser a própria
pessoa, contato com a interioridade ) acentuadamente e persistentemente
instáveis.
4 - impulsividade
em pelo menos duas áreas que são potencialmente
lesivas à pessoa ( self ): compras, sexo, abuso de substâncias,
direção perigosa e exageros alimentares.
5 - comportamento
suicída recorrente, com tentativas e ameaças ou
comportamento auto-mutilantes.
6 - instabilidade
afetiva devida à acentuada reatividade de humor ( por exemplo
disforia episódica intensa, irritabilidade ou ansiedade
usualmente durando poucas horas e só raramente mais que
uns poucos dias).
7 - sentimentos
de vazio crônicos.
8 - raiva
inapropriada e intensa ou difícil de controlar ( por exemplo
ataques frequentes de mal humor, raiva constante, agressões
físicas repetitivas).
9 - ideação
paranóide passageira, relacionada ao estresse ou sintomas
dissociativos severos.
Tendo em vista a clareza das condições para o diagnóstico
do TBP pelo DSM-IV podemos concluir que é fácil
o ato de diagnosticar o transtorno?
Não. O diagnóstico de TBP
pelo médico continua sendo uma questão muito complexa,
apesar das diretrizes que em muito ajudam, e deve ser feito por
profissionais que tenham um sólido conhecimento dos transtornos
de personalidade, um método sistemático de avaliação
e muita experiência em lidar com pacientes com estes transtornos.
É importante notar que o diagnóstico de TBP é
feito pela presença de uma coleção de traços
e não por um critério isolado. No entanto, merece
ser destacado no diagnóstico o esforço desesperado
que o portador do transtorno faz
para evitar o abandono real ou imaginário e a gravidade
das alterações das relações interpessoais,
seja na família, escola, trabalho e lazer e, posteriormente,
estas perturbações aparecem também com os
profissionais que se aproximam para oferecer tratamentos.
Mesmo com todos os progressos no conhecimento do TBP o diagnóstico
continua sendo mais arte do que ciência.
Como é o quadro clínico típico
de uma pessoa que apresenta o TBP?
A situação mais usual do
portador deste transtorno é a de uma pessoa com graves
alterações em várias áreas do seu
funcionamento:
- escolaridade interrompida, sem uma carreira profissional definida.
Os objetivos mudam rapidamente e nada é levado adiante.
São pessoas que estão muito defasadas com os pares
que não tiveram interrupções nas suas metas.
- Relações interpessoais muito perturbadas dentro
da família e fora
dela. Brigas constantes e agressões físicas não
são raras. Qualquer atrito com um chefe ou supervisor adquire
uma proporção muito grande, levando o abandono do
trabalho. A relação com professores é complicada
e tumultuada, dificultando o prosseguimento de estudos. As relações
de amizade são quase inexistentes.
- É frequente o envolvimento com bebidas alcoólicas
e outras drogas,
o que, às vezes, leva a extremos de violências e
envolvimento em atividades ilegais. A droga é um grande
complicador para quem já tem um funcionamento bastante
precário.
- Histórico de tentativas de suicídio e ameaças
constantes em relação a esta possibilidade. Algumas
são tentativas sérias e outras são apenas
para manipular e controlar o meio.
- Condutas auto-mutilantes como cortes e queimaduras.
- Variação muito grande no humor, com frequentes
ataques de fúria,
que, em geral, são de curta duração.
- Condutas manipulativas - os portadores de TBP estão sempre
negociando com as pessoas à sua volta, não para
obter vantagens ou tirar proveito dos outros mas para tentar uma
afirmação de si próprios. Eles parecem estar
sempre perguntando ´´ Quem está no controle
da definição desta situação, de mim
mesmo. E da realidade?``
Como ficam extremamente fixidos nesta
questão do exercício de controle, de poder e competência
há um grande prejuizo para as relações inter-pessoais
e a conquista de realizações pessoais e materiais.
Em resumo, são pessoas que tem os
seus familiares e pessoas próximas aterrorizadas por suas
condutas agressivas, sua imprevisibilidade, suas rápidas
mudanças, seus ataques de ira, suas ameaças de suicídio,
de auto-
mutilação e provocação de acidentes.
Tudo isto se alterna com momentos onde a pessoa é afável
e carinhosa.
Raramente a pessoa tem um funcionamento mental psicótico.
Isto ocorre, em geral, em momentos de grande estresse e tem curta
duração.
Tipicamente, o portador do TBP tem um discurso coerente, fala
coisas com lógica e adequação, não
está desorientado e quando a família relata a estranhos
os problemas que estão enfrentando com a pessoa acometida,
as pessoas às vezes duvidam do que ouviram relatar.
Como é o início do TBP?
O início das manifestações
do TBP ocorre na adolescência ou início da vida adulta
( raramente antes ). É um início tumultuado, explosivo,
com grandes manifestações de cóleras e condutas
muito agressivas, comportamentos pertubadores e destrutivos, ameaças
de agressões, de suicídio e auto-mutilação.
São frequentes as agressões verbais e físicas
a familiares e pessoas próximas. Podem ocorrer fugas e
envolvimento com drogas, furtos em casa e fora dela.
Ocorrem alterações alimentares ( anorexia ou bulimia),
contatos sexuais promíscuos e inúmeros outros comportamentos
marcados pela impulsividade.
Frequentemente há a necessidade de internação
nesta fase. Quando ela ocorre a pessoa pode permanecer até
dois anos após a alta ainda com várias áreas
de funcionamentos prejudicados. Os cinco primeiros anos são,
em geral, os mais complicados.
Como este transtorno se inicia e pela intensidade
de suas manifestações podemos dizer que a situação
é muito desesperadora e que as perspectivas futuras são
muito negativas?
Os conhecimentos mais recentes mostram
que mesmo com toda a conturbação e sofrimento que
o portador do TBP causa a sí próprio e a seus familiares
o curso do transtorno não
é tão negativo como se pensava antes. Hoje sabemos
que o risco maior de completar o suicídio no TBP é
nos 5/7 anos do início da manifestação. Depois
disto o risco cai muito. Sabemos também que 10% das pessoas
com TBP completam o suicídio.
As pesquisas recentes mostram que metade das pessoas que tiveram
o diagnóstico de TBP estarão funcionando normalmente
na 4º década de suas vidas.
Isto nos permite ver as possibilidades de melhora e mudanças
no curso do TBP de uma maneira mais otimista do que era visto
no passado. Tudo isto tem uma boa repercussão ao manter
a esperança nos médicos, nos pacientes e nos familiares.
O que se pode dizer do tratamento das pessoas
com TBP?
São tratamentos complicados e frequentemente
invadidos pelas dificuldades de relações interpessoais
do portador do TBP. Fazer o médico fracassar em suas tentativas
de ajudar torna-se, com frequência, o item mais importante.
As queixas e reclamações são frequentes e
em seis meses a metade dos pacientes que iniciam um tratamento
já terão abandonado. Estima-se que apenas 10% dos
pacientes façam um tratamento até o final.
Os tratamentos que apresentam os melhores resultados são
aqueles que envolvem psicoterapia, medicação ( quando
indicado ), orientação ou terapia familiar e medidas
de reabilitação.
Podemos sintetizar o mais comumente observado nos tratamentos
em 4 itens:
1 - Os efeitos
da medicação são modestos. Não existem
medicamentos para mudar o caráter de uma pessoa. Os pacientes
passam de severamente prejudicados a moderadamente prejudicados.
2 - A medicação
funciona melhor em um plano de tratamento que inclui suporte à
família e estrutura social do paciente e psicoterapia.
Esta combinação de esforços melhora a aderência
e confiança no tratamento minimizando o comportamento auto-destrutivo.
3 - Não
há estudos que possam dar garantia da segurança
de medicamentos mantidos por prazos longos com caráter
preventivo, e a medicação por tempo prolongado só
deve ser mantida com persistência dos sintomas ou extrema
vulnerabilidade.
4 - O TBP
permanece como uma síndrome heterogênea e não
há ´´ tratamento de escolha ``. Neurolépticos,
anticonvulsivantes, estabilizadores de humor, antidepressivos
e outros agentes farmacológicos podem ser usados segundo
a especificidade de cada paciente.
Se os tratamentos são tão
difíceis e de resultados tão modestos, por que fazê-los?
Embora os resultados sejam realmente modestos
eles valem a pena. Diminuem o sofrimento do portador do TBP, ajudam
as famílias que estão na linha de frente de problemas
muito difíceis e ajudam o paciente a transpor o período
mais tumultuado de seu transtorno. Aqueles que ultrapassam o período
de maior risco de suicídio, auto-mutilação
e envolvimento com drogas tem mais chance de chegar ao período
de estabilização. Os tratamentos servem também
para criar conhecimentos e desenvolver a experiência dos
profissionais envolvidos neste trabalho, com benefícios
para os pacientes que virão.
O que se conhece sobre as causas do TBP?
Compreender a origem dos transtornos de
personalidade é uma das áreas de maior desafio para
pesquisadores e clínicos. Os modelos etiológicos
devem ir além das relações lineares de causa-efeito
para integrar um espectro de fatores bio-psico-sociais. Em relação
às causas devemos ressaltar que:
1 - Os fatores
genéticos desempenham um papel importante. O TBP é
cinco vezes mais frequente em pessoas que tem um parente de 1º
grau com o transtorno.
2 - O impacto
do ambiente familiar no desenvolvimento da criança é
muito grande e um fator causal importante. Cerca de 80% dos pacientes
com TBP vêm o casamento de seus pais como sendo de natureza
conflitual.
Muitos pacientes com TBP passaram por abusos físicos e
sexuais dentro de suas famílias. No entanto, há
pacientes com TBP que tiveram familiares absolutamente comuns,
sem nada de anormal.
3 - Fatores
sociais mais amplos tais como mudanças sociais rápidas
que interferem na transmissão inter-gerações
de valores tem um papel causal.
4 - Fatores
psicológicos e constitucionais. A teoria mais conhecida
e aceita é a de Kernberg que sugere que a patologia básica
no TBP é o excesso de agressividade, consequência
de um problema constitucional que faz com que a criança
reaja em excesso às frustrações parentais
habituais ou de uma quantidade excessiva de frustração
precoce que traz uma agressividade excessiva como reação
a estas frustrações. Isto leva a criança
a ver-se como uma pessoa potencialmente perigosa e assassina e
que vive em um mundo muito hostil e perigoso. De fato, ou ela
se vê como ´´ toda má `` ou o seu mundo
como ´´ todo mau ``.
5 - Estudos
recentes mostram a importância de um cérebro intacto
na formação e manutenção de uma personalidade
normal.
Os testes de funcionamento do sistema frontal ( lado frontal do
cérebro ) no TBP parecem mostrar deficits como impulsividade,
inflexibilidade cognitiva, pouco auto-monitoramento e dificuldades
no processamento de informações.
Estes deficits podem contribuir para as dificuldades comportamentais,
interpessoais e emocionais exibidos por pacientes com TBP e ter
um impacto significativo nos esforços terapeuticos.
Como é o impacto na família
por ter um membro com TBP?
Os membros da família são
os trabalhadores ´´ da linha de frente `` que tem
que conviver com a pessoa afetada pelo transtorno e também
podem vir a ser muito comprometidos pelos comportamentos assustadores,
confusos inconvenientes e que causam perplexidade.
As pesquisas mostram, consistentemente que a carga suportada pelos
membros da família afetam a comunicação e
o desempenho dos papéis familiares, trazendo tensões
enormes que podem levar a separações conjugais e
outros problemas na convivência familiar.
Outro fator poderoso que afeta o nível
de aflição experimentada pela família que
tem um de seus membros numa situação mental precária
é o significado que uma sociedade atribui a este transtorno.
Um melhor esclarecimento da
natureza deste transtorno junto à comunidade científica
e ao público em geral reduz consideravelmente este fator.
O que esperamos do futuro para esta área
?
Esperamos que o crescimento do interesse
dos profissionais de saúde mental por este apaixonante
e difícil tema possa trazer novas pesquisas e conhecimentos
que beneficiem os pacientes com TBP, seus familiares e a comunidade.
Que novos conhecimentos melhorem a nossa compreensão das
causas do TBP, indiquem melhores caminhos para os tratamentos,
que nos permitam diferenciar os sub-grupos de TBP que melhor reagem
aos tratamentos e compreender porque alguns não reagem. |